« A escolha da velha águia. | Entrada | A previsão. »
agosto 23, 2008
A Fada Cansada.
As Fadas são como as Bruxas:"Eu nunca as vi mas que as há, há".
Etiénne nasceu num dia cheio de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Foi encontrado horas depois, por um velho pescador que vivia numa cabana perto dali, a chorar a plenos pulmões.
O velho Sotegã levou-o e esperou durante dias, meses, anos que alguém viesse à sua palhota bastante humilde perguntar por um bebé que tinha nascido num dia de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Como isso nunca aconteceu, ele, o velho Sotegã e a sua filha Monique, admiradora incondicional de Etiénne Daho, criaram-no como se fosse sangue do seu sangue.
Para Sotegã, que desde sempre se lembrava de criar e viver de baixo do mesmo tecto com a filha, não houve problema em ter mais uma boca para alimentar.
Aquele bebé passou a ser mais uma fonte de alegrias nos dias que passavam calmamente, como as nuvens no céu.
Para Monique, a entrar na puberdade, foi este um teste de admissão na vida adulta, ao ter que assegurar as necessidades básicas de um ser humano, quando ela própria ainda tentava perceber quais eram as suas.
Foram dias, meses, anos de luta, de choro, nunca de raiva ou desalento mas de muita união.
Para Etiénne, aqueles dois seres que o fizeram crescer eram sem dúvida responsáveis pela sua vinda ao mundo, até que...
Bem, até que um dia perguntou, como quem pergunta que estrela é aquela muito brilhante ali no céu, se o velho Sotegã e a Monique eram os seus pais, palavra nova que tinha acabado de aprender nos primeiros dias de escola.
Palavra essa tão nova e cheia de coisas interessantes, e nunca ouvida ou sequer utilizada lá em casa.
O velho Sotegã olhou para ele calmamente.
Coçou a barba rala e branca e considerou.
Monique olhou para os dois com um sorriso nos lábios.
O velho Sotegã continuava calado mas agora de olhos postos no chão.
Monique pegou na mão de Etiénne e na mão do velho e levou-os pela praia fora até a um velho coqueiro.
Debaixo da sua sombra fê-los sentar e contou uma história de uma Fada cansada de voar com um pequeno bebé muito bonito nos braços.
Enquanto descansava, calhou de passar por ali o velho Sotegã que viu ali a pobre Fada cansada, oferecendo-lhe logo de seguida um pouco de água para saciar a sua sede.
Como a Fada estava mesmo exausta, e ainda tinha muito caminho para voar, pediu ao velho Sotegã se não se importava de ficar com aquele lindo bebé que ela, quando pudesse, logo viria para o levar de novo.
Etiénne ficou então conhecido pelo o filho da Fada cansada, história que nunca se cansou de repetir pelos quatro cantos da ilha a todos que o quisessem escutar.
Desde então, todas as noites, Etiénne fica algumas horas à espera dela, a sua mãe Fada Cansada, que o venha buscar.
Nunca ficou triste com o passar dos anos e ela sem vir, porque, claro, um dia alguém lá lhe disse que as Fadas nunca existiram naquelas partes do mundo e que tinha sido o velho Sotegã a encontrá-lo num dia cheio de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Etiénne nunca deixou, mesmo assim, de cumprir o seu ritual diário de espera nocturna debaixo do mesmo coqueiro onde fora encontrado.
E diz aos 4 ventos, novamente para o quem quiser escutar, que a Fada Cansada, sua mãe, afinal tinha voltado há muitos atrás para o buscar, só que tinha resolvido ficar na sua companhia e do velho Sotegã naquela bela praia e viver em calmamente, aproveitando cada dia de paz e de sol debaixo de um certo coqueiro.
Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 23, 2008 02:11 PM
Trackback pings
TrackBack URL para esta entrada:
/g/tb/173525
Comentários
O velho triste
O velho acordou cedo como é seu costume e, mais uma vez, nem precisou de despertador.
A força dos anos emperrou-lhe o relógio biológico de tal forma que, independentemente da sua vontade, acorda sempre à mesma hora.Com as galinhas, já se vê! Exactamente quando o primeiro raio de sol entra pela frincha da janela. Há muito que tinha pedido à filha para colocar umas cortinas mais opacas mas ela acha que não ficam bem e, por isso, vai-se esquecendo de realizar o pedido. O que ela não se esquece é de lhe deixar, todos os dias, antes de sair de casa, sobre a toalha bordada da mesa da cozinha, uma quantidade enorme de medicamentos.
“Tanta tralha colorida que é preciso ingerir para ver se a vida fica mais alegre”- pensa o velho enquanto, um a um, juntamente com um pouco de água, os enfia goela abaixo. Depois é só repetir o ritual de acordo com as horas marcadas no horário preenchido com a caligrafia da filha.
“Um homem quando chega a velho nem precisa de pensar muito, basta seguir as instruções”- costuma resmungar para si próprio.
Até podia soletrar as palavras na perfeição e falar bem alto que ninguém o ouviria.
Passava os dias na jardinagem, onde se expressava de uma forma meticulosa e esmerada. De resto, durante o dia, mesmo quando a sua filha chegava para lhe preparar e partilhar as refeições, poucas palavras usava. À noite via um pouco de televisão e deitava-se cedo.
Este era o vigésimo segundo dia em que apesar de acordar cedo não lhe apetecia levantar-se. Era o vigésimo segundo dia que não sabia da sua filha. O vigésimo segundo dia em que nos olhos muito azuis do velho não havia o menor brilho.
- Não se preocupe, coma e tome os remédios à hora certa que eu vou sair por algum tempo mas volto. Disse a filha antes de pegar nas malas e abalar.
E o velho ficou à espera…
Publicado por: Niklas às agosto 26, 2008 05:14 PM