« Um raio de sol. | Entrada | A Fada Cansada. »

agosto 22, 2008

A escolha da velha águia.

A águia é a ave que possui a maior longevidade da sua espécie chegando a viver setenta anos. Mas para chegar a essa idade, por volta dos 40 anos ela tem que tomar uma decisão muito séria e difícil. Nessa idade as suas unhas tornam-se compridas e flexíveis e deixa assim de conseguir agarrar as presas das quais se alimenta. O bico, outrora alongado e pontiagudo, está agora encurvado. Encurvadas também contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas devido à grossura das penas. Voar torna-se cada vez mais difícil. Nesse momento a águia só tem duas alternativas: morrer… ou enfrentar um doloroso processo de regeneração que irá durar cerca de cinquenta dias. Ela terá que voar para o alto de uma montanha e recolher-se num ninho perto de uma rocha, de onde não seja forçada a sair. Após encontrar esse lugar a águia começa a bater repetida e dolorosamente com o bico na rocha até conseguir arrancá-lo! Depois de o extrair, espera pelo nascimento de um novo bico como o qual inicia nova e dolorosa regeneração arrancando agora as suas unhas. Depois, quando as novas unhas começam a nascer, ela puxa e arranca uma a uma, as suas velhas penas. Então um dia, passados cinco meses desse lento e difícil processo de mudança a águia renascida lança-se no seu famoso voo de renovação, que abre as portas a uma nova etapa de mais trinta anos de vida.

Obrigado, Niklas.

Lembro-me do meu Avô, cada vez que passa um western na TV.
De repente, o John Wayne transforma-se nele, naquele velhote de bigode farfalhudo, cara redonda e olhos doces, cada vez que desce de um cavalo, ou empunha o seu Colt 45 ou, sobretudo, chama "pilgrim" a alguém.
O meu Avô vibrava tanto com os filmes do John Wayne e do John Ford que, por volta dos meus 7 anos, passei a ser o seu Pilgrim.
Juntos, nunca falhava-mos um filme de cowboys no cinema ou na TV.
Da sua boca o meu nome desapareceu para todo o sempre e, para grande irritação da minha Mãe, eu era o Pilgrim.
O seu Pilgrim.
- Pilgrim, ouvi dizer que bateste no Zézito hoje no fim das aulas.
- A culpa foi dele. Pedi-lhe se faz favor se me emprestava a borracha para apagar uma coisa e ele disse que comprasse uma que os meus pais têm muito dinheiro.
- E a tua?
- Emprestei-te a ti para apagares uns erros quando escrevias uma carta àquela senhora.
- Ah! Então deste-lhe poucas, Pilgrim.
É verdade. Lembro-me tão bem.
Devo ter sido o único neto no mundo que acompanhou bem de perto a paixão que o meu Avô nutria por uma senhora que vivia um pouco mais abaixo de nós, duas ou três casas, na rua.
Com esta distância, percebo agora o esforço que o meu Avô teve de fazer para renascer das cinzas para o amor, depois da morte da minha Avó e perante a fragilidade da minha Mãe.
A questão para ele não era de todo simples.
Da vida de 50 anos em comum com a minha Avó, dizia ele, só restava o amor incondicional que sempre demonstrou pela minha Mãe.
O resto era levado pelo vento, de cada vez que os meus Avós se iam afastando um do outro.
Ele nunca a deixou porque, como um dia me confidenciou, um verdadeiro cowboy nunca cospe no prato onde come, nem maltrata o cavalo que o transporta.
Na verdade, na altura, não atingi o que realmente me queria dizer.
No fundo, para ele, respeito e amor pela mulher com quem se tinha casado nunca se confundiram.
Daí que para a minha Mãe, era um desrespeito para a memória da minha Avó aquele amor patético de "velho xéxé", nas palavras duras dela, que nutria pela senhora Idalina lá da rua.
Durante muito tempo ele viveu na angústia de um acto, qualquer que fosse ele, que deveria tomar em mãos para assumir a paixão que lhe fazia vibrar o seu coração, já frágil, pela primeira vez em 75 anos de vida.
Ou então ficar quieto e calado, cada vez que a senhora Idalina passava na rua e sorria para ele com os olhos de soslaio, por amor à filha que tanto amava e respeito à falecida.
Penso que o rascunho da carta para a senhora do fundo da rua, escrita a lápis, o meu lápis da escola, andou nos bolsos das suas calças durante meses seguidos até se desfazer em pequenos pedaços.
Como se fossem fragmentos do seu coração, que aos poucos e poucos se desvanecem no ar por acção do tempo, que irremediavelmente passa.
No fim de contas, o amor que o meu Avô nutria pela senhora Idalina nunca passou de uns sorrisos de olhos nos olhos muito breves e sorrateiros, cada vez que se cruzavam.
Tal como o Lucky Luke, o Jonh Wayne fazia-se ao deserto ao pôr de sol, cavalgando para longe daqueles que amava.
Por isso mesmo, por amá-los muito.
Hoje em dia o mundo do John Wayne vive na recordação de uns quantos, tal como o meu Avô vive no meu coração.
Parece que o estou a ver, em cima do seu cavalo em direcção ao pôr do sol a cantar "I'm a poor lonesome cowboy and a long way from home...", quando soube que a senhora Idalina sucumbiu a uma falha de coração.
Um coração que, segundo se constou anos mais tarde, só pertenceu a meu Avô, já que ela sempre fora solteira.
E tal como um verdadeiro Pilgrim que sempre fui para ele, disparo para o ar com a minha Colt 45 imaginária para que ele possa sentir as minhas lágrimas, sempre que o John Wayne entra em cena num filme qualquer do John Ford.
E eu fico colado ao ecrã, na esperança de ver em segundo plano um casal de velhotes a sorrir, de soslaio, com os olhos.

Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 22, 2008 09:12 PM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
/g/tb/173512

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)