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agosto 20, 2008
"Inventar a Solidão"...
"Inventar a Solidão" de Paul Auster (ASA)
Este é mais um best-seller austeriano que, apesar de já ter sido publicado em 1982 nos EUA, só agora foi editado em Portugal.
O livro é composto por duas partes sendo a primeira intitulada de “Retrato de um Homem Invisível”. Aqui o autor tenta, ao longo de cerca de 90 páginas, recuperar a memória do seu pai, num esforço de reinventar a sua vida após uma morte súbita.Um livro que pretende demonstrar que escrever é inventar a solidão para depois partilhá-la. Que, sem ser directivo, mostra o caminho para o auto-conhecimento.
Porque todo o livro que implique uma escrita criativa é um livro de memória.
Para prolongar o momento até à eternidade.
Cláudia de Sousa Dias - 05.04.2005 (www.hasempreumlivro.blogspot.com)
- No outro dia reparei que se fechasse os olhos durante precisamente 33 segundos conseguia ver o futuro.
Olhei para para ela, desconfiado.
Por vezes acontecia-me desconfiar das pessoas que olham para mim enquanto espero o autocarro das 15e22.
Agora tinha mesmo de desconfiar mais seriamente porque ela falou directa e exclusivamente para mim, não se limitando a olhar como se fosse mais um a tirar-lhe o lugar quando o autocarro aparecesse.
Tinha os cabelos pretos soltos que lhe davam pelos ombros.
Era de estatura baixa e magra de carnes.
Vestia uma saia curta e justa vermelha de um tecido forte e um top amarelo.
Nos pés, pequenos e bem feitos, umas sandálias pretas com um pequeno friso dourado.
Olhei para ela, já que me tinha interrompido a leitura do meu "Inventar a Solidão".
- É verdade. Vejo-me num futuro próximo a fazer qualquer coisa, não sei muito bem o que é porque me assusto e abro os olhos e tudo se desvanece. Acontece sempre isto. Nunca consegui ir mais além por causa do susto que aquilo me dá...por mais que tente...
Continuei a olhar para ela tentando ler traços de loucura ou outra patologia conhecida na sua fisionomia.
Ela limitou-se a sorrir. Olhou de novo para baixo, com tristeza.
Que raio! Aquele olhar tocou-me fundo. Comoveu-me porque foi mesmo um olhar sincero e sentido.
Como se ninguém mais a ouvisse ou sequer conseguisse perceber o que as suas palavras queriam alcançar.
Pousei o livro nas minhas pernas e durante breves segundos hesitei até o fechar.
Olhei para ela, como se quisesse encorajá-la a dizer mais qualquer coisa por mais insignificante que fosse, porque agora estaria a ouvi-la e concentrado no que a sua boca-alma me transmitiria.
Atento apenas a ela, ao seu pequeno mundo, às suas visões.
Ela limitou-se a tirar o pé da sandália e esfregar com o seu pé nu a barriga da perna, sempre a olhar baixo e com as mãos apoiadas à borda do banco de espera.
Procurei o que lhe dizer.
Enquanto procurava algo interessante para a estimular a falar comigo e fazer com que perdesse aquele olhar que me "matava" até ao mais profundo do meu ser, ela levantou-se e foi-se embora sem sequer olhar para trás.
Para mim, o único que se calhar a queria ouvir e que tinha desperdiçado a oportunidade...
Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 20, 2008 12:03 PM
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